"É na escuta que o amor começa. E é na não escuta que ele termina. Não aprendi isso nos livros. Aprendi prestando atenção".
Rubem Alves

Escola Casa da Infância

Mais Sobre a CASA

O que significa uma escola de Portas Abertas?

Significa que a escola está aberta e deseja a presença e participação das famílias no cotidiano. As famílias chegam para viver experiências com as crianças, para participar do cotidiano e, assim, constroem relação com educadores, crianças e outras famílias. Acreditamos que a confiança acontece quando construímos relações verdadeiras, com escuta e diálogo, e que a educação é uma responsabilidade conjunta, uma parceria da família e da escola que, junto com as crianças, se constituem enquanto comunidade em aprendizagem.

 

Desta forma, construímos um cotidiano juntos, partilhando tanto a beleza de vivenciar as descobertas das crianças quanto os desafios que uma vida em comunidade nos convoca: respeito, tolerância, lidar com a diversidade e o diferente, buscar formas de estabelecer uma comunicação mesmo quando algo nos inquieta... Portas abertas traz também a corresponsabilidade na presença com as crianças, no respeito às pessoas, espaços e processos que estão sendo vividos, sendo importante buscar formas de se comunicar em tom de voz baixo, próximo às crianças, de entrar nos espaços de forma sutil buscando integrar-se com delicadeza e evitando interromper processos em andamento.

A CASA celebra datas comemorativas?

Celebramos a vida em muitos momentos durante o ano, mas não associamos estas celebrações a um cunho comercial ou de algo que é “feito Para” alguém, são sempre momentos “feitos Com”.

 

Celebramos a vida das crianças em seus aniversários, preparando juntos com a família o bolo; celebramos as funções materna e paterna com toda a comunidade, intensificando a presença das famílias para viverem momentos com as crianças; celebramos momentos culturais importantes para o nosso povo, como carnaval e São João, bem como nos vinculamos a ícones da música popular ao longo do ano, numa construção coletiva, para homenageá-los em nosso Musical; e celebramos a alegria de termos vivido um ciclo juntos, na Festa da Luz.

A proposta é muito diferente, é igual a casa/espaços de brincadeiras?

O lúdico, o brincar, o jogo, o jogo simbólico, são linguagens próprias da infância. A compreensão dessa dimensão enquanto fundante e estruturante para a infância, resultam numa valorização plena do lúdico no cotidiano da Casa, pois é a partir disso que as crianças compreendem o mundo. Entretanto, as relações, o cotidiano, os espaços e materiais possuem intencionalidade pedagógica e são continuamente pensados e inseridos a partir das experimentações, explorações e investigações que as crianças fazem no cotidiano e a partir do real.

 

O percurso de organização de ambientes, observação, registro, análise, reorganização do espaço, possibilita o aprofundamento das experiências e um aprendizado significativo das crianças a partir dos materiais e ambientes em que estão inseridas. Por isso, por exemplo, não temos “hora do recreio” como momento em que as crianças estão autorizadas a brincar, temos um cotidiano fluido em que as aprendizagens se dão em relação, com as pessoas e ambientes.

Tem aula de música, de inglês e outras aulas?

Na Casa vivemos experiências, não aulas. Algumas dessas experiências são vividas junto a outras pessoas que desenvolveram determinadas habilidades e construíram alguns saberes específicos. Compreendemos a musicalidade como uma linguagem humana, assim como a expressão gráfica e plástica.

 

Deste modo, buscamos potencializar as possibilidades de expressão das crianças nessas e em outras linguagens em diferentes momentos do cotidiano. Temos um educador que é músico e uma educadora que é artista plástica, bem como um educador físico e uma falante do inglês, que não atuam apenas com as crianças, mas sobretudo com os educadores, apoiando com seu olhar especializado para que as experiências com as crianças nessas linguagens possam acontecer com mais profundidade e relacionadas com as investigações e diferentes situações de expressão, não apenas diante da presença do educador especialista.

Por que as crianças do grupo não estão sempre juntas?

Enquanto escola viva, acreditamos que as crianças têm envolvimentos diferentes com os contextos e materiais e que, em pequenos grupos, temos a oportunidade de escutar, registrar as oportunidades e experiências, assim como potencializar a troca entre elas. Por isso os ambientes são organizados por estações, que permitem uma circulação e envolvimentos múltiplos, a partir de diferentes linguagens (Natureza, Musicalidade, Construtividade, Comunicação, Plástica, Jogo simbólico, Corpo e Movimento, Faz de conta...).

 

Além disso, toda a escola é compreendida como educativa: os espaços e as relações com todos os educadores (incluindo o educador porteiro, as educadoras cozinheiras, as educadoras da limpeza...), de modo que as crianças possam viver experiências nos mais diferentes espaços e aprender com elas. As crianças circulam muito entre os diferentes espaços da Casa, incluindo varanda, entrada, corredores etc, o que apoia na sua segurança e confiança com o espaço e o estabelecimento de diferentes relações.

Aqui tem regras?

Vivemos o desafio da escolha de viver a partir das possibilidades de uma convivência coletiva essencialmente democrática, o que nos leva a pensar em possibilidades ao invés de estabelecer limites a priori. As regras de convivência na Casa são construídas em relação (entre educadores, crianças e famílias), considerando situações reais, buscando o exercício da escuta, do olhar relativo, da compreensão do lugar de cada um, mas da definição a partir do que é benéfico e necessário para a harmonia da coletividade, a partir dos valores que sustentam a Casa.

 

Assim, é um processo contínuo, infindável, que necessita de auto-regulação e de acordos que precisam ser vividos por todos de forma consciente e corresponsável, com atitude de cuidado diante das pessoas, dos espaços, dos materiais. As regras precisam ser declaradas e sustentadas por todos e, enquanto adultos, precisamos apoiar as crianças na construção de sua autonomia de forma progressiva, de tal maneira que aprendam a capacidade de governar a si mesmas na relação com o outro e com o mundo. O que não significa agir a partir de regras impostas de forma arbitrária nem tampouco promover a liberdade como expressão indistinta de vontades e desejos.

 

Socialmente, estamos habituados a viver em contextos com regras e proibições definidas de forma unilateral e sobre as quais só temos duas alternativas: obedecer ou burlar. Ou seja, isso leva a extremos, especialmente quando não nos sentimos contemplados, e dificulta a ação autônoma, pois estamos sempre regulados pelos outros. Aqui, buscamos construir também a partir dessa dinâmica de participação no estabelecimento de regras, a vivência do exercício de olhar para si, para o outro, e buscar juntos quais são as possibilidades que contemplem não necessariamente a maioria numérica, mas a possibilidade de manutenção e alcance dos propósitos que nos conectam a este espaço. Isso significa que sempre buscaremos dialogar sobre possibilidades que potencializem a experiência nesse espaço social coletivo.

Se meu filho só brinca e não faz tarefas e não tem atividade para casa, o que e como ele vai aprender?

Buscamos investir em contextos e processos potentes e relações que possibilitem experiências reais e contextualizadas de interação no e com o mundo e, assim, construir com as crianças oportunidades de experimentar e desenvolver habilidades, competências, atitudes, e ter acesso a informações importantes para que sejam cidadãos cônscios, corresponsáveis e propositivos na realidade social em que estamos inseridos.

 

Aqui buscamos viver um cotidiano que possibilite uma relação da criança com o ambiente (físico, social, emocional, cultural...) mediado experiências significativas e por situações provocadoras, que convocam e provocam a construção interdisciplinar de conhecimentos, habilidades e competências. Participar ativamente de um cotidiano em um espaço onde é parte integrante, é comunicar confiança, é viver valores como democracia e participação. Aliado a isso, a vivência de situações como plantar na horta, ou fazer uma receita, por exemplo, coloca as crianças em contato com situações diversas de leitura e escrita, de conhecimentos lógico-matemáticos, culturais, sociais, do mundo natural, que as permitem viver diversos conceitos previstos formalmente nos documentos oficiais do nosso país para a primeira infância (BNCC, 2017) e que são contemplados nas propostas vividas com as crianças, de forma integrada e interdisciplinar.

 

Acreditamos que a escola deve ser um espaço para o aprendizado não só de informações, mas de aprender a conviver, a ser, a relacionar-se, a lidar com as emoções, com os conflitos, com os desafios pessoais e coletivos. Escola como um espaço de vida bem vivida, em que aprender, descobrir, investigar sejam atos desejados, contínuos e aprofundados sempre. As crianças na primeira infância supervalorizam o que é dito pelos adultos, e isso pode ofuscar as suas próprias ideias, fazendo com que repitam informações que, mesmo verdadeiras, ainda não são plenamente compreendidas pelas crianças. Por isso, buscamos possibilidades para que as crianças aprendem a argumentar, a comunicar as suas ideias, a testar e rever as próprias hipóteses... Assim, elas desenvolvem o raciocínio e o pensamento, e quando entrarem em contato com as informações, poderão interagir com elas de forma crítica e reflexiva. Ou seja, elas tem a oportunidade de aprender a aprender. Aprendem a lidar com as diferenças, aprendem sobre as consequências das suas ações, aprendem a cuidar e a serem cuidados.

 

Além do cotidiano, as crianças vivem processos de investigação a partir de perguntas reais, reveladas por elas em palavras ou nas suas ações e buscas cotidianas, que nos levam a percursos imprevisíveis e construídos em processo, que podem, inclusive, ter continuidade no ano letivo seguinte.

Como vai ser quando ele for para outra escola?

Cada fase de vida é única, tem características próprias e que devem ser vividas em sua plenitude, ou seja, não é preciso considerar uma fase apenas como uma preparação para a fase seguinte. A cada momento, a partir do crescimento e amadurecimento, as crianças vão compreendendo a estrutura, funcionamento organização e regras e modos de agir da sociedade, instituições e pessoas, e serão capazes de argumentar e buscar formas de inserção nos novos contextos. Além disso, pensando na continuidade, a escola Casa da Infância iniciou uma ampliação para o Ensino Fundamental no ano de 2017, o que possibilita que as crianças continuem vivendo experiências educativas com esta mesma compreensão de relações, espaços e conhecimento interdisciplinar do mundo.